Quarta-feira, Setembro 27

(e ainda são 2 da tarde)


...and who are you?
I — I hardly know, sir, just at present — at least I know who I was when I got up this morning, but I think I must have been changed several times since then.

Marshall McLuhan,
The Medium is the Massage - An Inventory of Effects

my bag (lost around 1986)




hey i was walking my bag
through a 20 storey non stop snow storm
pirrelli calender girls wrestling in body lotion
my head's swimming with poetry and prose
excuse me one moment whilst i powder my nose
me and my good thing are just about as close as can be
we gave up sleep at the age of 17
my world's getting bigger as my eyesight gets worse
i can't see the lines on my idiot board
what about love?
i don't let that stuff in my house
this is the glamorous life there's no time for fooling around
lord have mercy i know what I'm doing
i don't need an alibi i need a fire escape and an open window
it's my problem it's nothing i can't deal with
I'm not chasing anything just jogging baby
what's your bag?
hundred million dollar jam
got some traffic yessir in my nose
motorcycle speed cops burning up my dust roads
my baby left me heck ain`t that a shame
she's over in the corner with my new best friend
I'm doing fine with my whisky and wine
and meet me in the john john meet me in the john john
lord have mercy
...what's your bag?
spin spin whisky and gin i suffer for my art
bartender i got wild mushrooms growing in my yard
fix me a quart of petrol clams on the half shell
feels like prohibition baby give me the hard sell
more give me more give me more more more
I'm your yes man yes maam I'm your yes man
lord have mercy...


My bag
, Lloyd Cole


getting down on my knees

Every time i think of you
I feel shot right through with a bolt of blue
It's no problem of mine but it's a problem I find
Living a life that I can't leave behind
There's no sense in telling me
The wisdom of a fool won't set you free
But that's the way that it goes
And it's what nobody knows
While every day my confusion grows
Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I'm waiting for that final moment
You'll say the words that I can't say

I feel fine and I feel good
I'm feeling like I never should
Whenever I get this way, I just don't know what to say
Why can't we be ourselves like we were yesterday
I'm not sure what this could mean
I don't think you're what you seem
I do admit to myself
That if I hurt someone else
Then I'll never see just what we're meant to be
Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I'm waiting for that final moment
You'll say the words that I can't say

Bizarre love triangle, New Order

Quarta-feira, Setembro 6

mito

- acho que o seu nada que é tudo
é um nada em tudo diferente do meu.

(Alberto Pimenta com uma piscadela de
olho a Pessoa um tudo nada diferente dele)

Sábado, Agosto 19

à espera da despedida possível

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

Gastão Cruz

Sexta-feira, Abril 14

Nan Goldin, «Valerie and Gotscho embraced», Paris, 1999

parece que ontem ou anteontem foi dia do beijo; os dias e os beijos podem correr mal

MR. BRIGHTSIDE (THE KILLERS)

Coming out of my cage
And I've been doing just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all
It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss

It was only a kiss

Now I'm falling asleep
And she's calling a cab
While he's having a smoke
And she's taking the drag

Now they're going to bed
And my stomach is sick
And it's all in my head

But she's touching his chest now

He takes off her dress now
Let me go
And I just can't look
It's killing me
And taking control

Jealousy
Turning saints into the sea
Turning through sick lullaby

Joking on your alibi
But it's just the price I pay
Destiny is calling me
Open up my eager eyes
I'm Mr. Brightside

Sexta-feira, Abril 7

Os privilégios [medievais] do «Príncipe» (ou «um negócio e pêras»)

o fim da semana acode-me à retentiva

Autodidacta

Autodidacta, já ia na terceira
fasciculada história da pintura
e olhava o mundo como se ele fora
só uma tela, bem ou mal pintada.

Se acaso em piquenique desdobrava
toalha em relva, logo o Déjeuner
sur l'herbe lhe acudia à retentiva,
mas a nudez alegre é que faltava...

E quando um farroupilha conferia
com o certo retirante da memória,
em portinaris o mundo sacudia
sacos de ossos da sua triste história.

E ao enamorar-se, a breve entrecho
já era El Hombre con la mano al pecho...


(O'Neill, Alexandre. Poesias completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p. 279;
do livro de 1969 De ombro na ombreira)

o fim da semana V

Le déjeuner sur l'herbe, Alain Jacquet, 1964

o fim da semana IV

Le Déjeuner sur l'herbe, Picasso, 1962

o fim da semana III

Le Déjeuner sur l'herbe, Cezanne, 1873

o fim da semana II

Le déjeuner sur l'herbe, Monet, 1865

o fim da semana

Le déjeuner sur l´herbe, Manet, 1863

Quarta-feira, Março 29

shame on you, Miss Daisy

Finalmente alguém se deu ao trabalho de dar um sentido à obra de Margarida Rebelo Pinto. Porque, na realidade, todo o discurso crítico nasce da tentativa de produzir e conferir sentidos a uma obra.
E a paga é uma providência cautelar?!
Vale a pena ler isto.

Mas vou calar-me, não vá alguém mandar fechar este blog de trazer por casa.

Terça-feira, Março 14

como dizê-lo?

Algo me diz que Koeman não é o treinador mais inteligente do mundo. Tem - como dizê-lo? - falta de tacto. Isso e Beto.

O meu coração sofre baixinho e nem Q. poderá acalmar-me.
Eu que grito, sem ninguém me ouvir, nas hierarquias dos Anjos.

acidentes de percurso

Quando Albino se despistou na auto-estrada a 250 km/h, do corpo e do carro apenas foi possível recuperar o espelho retrovisor central, do qual pendia, intacto e imaculado, um terço fluorescente.

quem limpa com vileda limpa com perfeição


As luvas Vileda MultiPremium, descartáveis, mais resistentes, mais largas, com maior protecção, deixam nas mãos de Q. o cheiro das tardes de sexo clandestino dos 18 anos.

Terça-feira, Março 7

TV Guia

E quando o estatuto de dona de casa parecia diluir-se algures no espaço etéreo do trabalho para fora, eis que a TV Guia regressa à minha vida.

Segunda-feira, Fevereiro 27

respostas sazonais

E Q. respondeu-lhe: Diz-me isso - ossos nos ossos.

limpezas sazonais


Ser a dona de casa de um blog secreto dá muito trabalho. Há sempre umas sujidades entranhadamente ocultas que encobrem determinados posts, determinados bibelots, determinados comentários.

Sábado, Fevereiro 11

não-regresso

Acabei de receber um ultimato (eu, que apesar de gostar de ultimatos, evito fazê-los por considerá-los perigosos). Um ultimato sem rosto nem nome, apenas umas palavras ingratas, que terminam como se nada de mal me estivessem a dizer: «this blog will terminate in 10 days. for more information contact us soon or just write something. best regards.». Quer dizer: se eu tivesse morrido entre o Natal e o Carnaval, para além de ter perdido a neve a cair sobre Lisboa, a súbita falta de produtividade do meu clube e a polémica do século (este mesmo, o novo), nada de mim ficava (e eu com nada ficava de mim).
«São coisas assim que tornam o coração vulnerável», sendo que não só a «a poesia é a ficção do verdade». And I am just writing something. Best regards.

Terça-feira, Dezembro 27

regresso

Agora que o Natal acabou, posso regressar. Com paz e sossego.


As coisas deste mundo? Prefiro falar
do precipício concreto
de um abraço.


Manuel de Freitas, «Bar Alto», in A flor dos terramotos, Lisboa, Averno, 2005, p. 37.

Segunda-feira, Dezembro 19

Funes

Q. entretém-se a sublinhar a obra de Borges e deseja secretamente lembrar-se de algumas frases para sempre. Sabe que amanhã apenas conseguirá reproduzir uma ou duas. Indignar-se-á até ao momento em que se lembrar de Funes, com uma obscura flor de maracujá na mão.

Sexta-feira, Dezembro 16

finalmente a explicação

Finalmente alguém apresenta uma razão válida para a quantidade de livros que se publicam em Portugal:

Inspirado pelas "Greguerías", de Ramón Gómez de la Serna, Márcio escreveu as "Gregorias", depois de uma noite de copos.

a propósito

In order to arrive there,
To arrive where you are, to get from where you are not,
You must go by a way wherein there is no ecstasy.

T. S. Eliot
(do poema «East Coker», in Quatro Quartetos, edição bilingue, tradução
e introdução de Gualter Cunha, Lisboa, Relógio d'Água, 2004, p. 46)

para averiguar do seu grau de melancolia

A melancolia de Q. revela-se nos momentos em que tem que decidir se sai pela ala poente ou pela ala nascente do Metro. Q. opta sempre pela ala poente, e afasta-se cada vez mais do sítio aonde quer chegar.

shopping cart III ou não (11)




(No Natal eu quero)

não a recordação, mas o vago pressentimento dela.




shopping cart II

No Natal eu também quero que os portugueses deixem de dizer «dever de» e «vivendas germinadas».

shopping cart

No Natal, eu quero my owm personal jesus/ someone to hear my prayers/ someone who cares/ my own personal jesus/ someone to hear my prayers/ someone who's there.

Segunda-feira, Dezembro 12

parcialmente miseráveis

«(...)
Em tempos como estes, de usura, há algo de inquietante e de escandaloso no mistério gratuito da poesia. Por que continuam os homens a escrever poesia? E por que continuam outros homens, desrazoavelmente, a escutá-la?

A poesia não tem respostas (às vezes, pobre dela, nem perguntas), não oferece consolo, não promete coisa nenhuma. É apenas um fio de voz desprovido e solitário, vindo de lugares antiquíssimos dentro dos homens e persistindo obstinadamente no meio da vozearia do comércio e da gritaria dos media. Que haja quem continue à escuta dessa longínqua voz pode significar que talvez haja esperança e que talvez, afinal, não sejamos inteiramente miseráveis.»

Domingo, Dezembro 11

e ela respondeu-lhe «é mais ou menos isto»

Helena Almeida, Sem título,
1994-95 (detalhe)


Sábado, Dezembro 10

estes são dias

Estes são dias de ver filmes de Woody Allen e ler poemas de e.e.cummings.

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

Sexta-feira, Dezembro 9

esse outro abismo fundamental

Quase todos os dias nasce gente na família de Q.. No entanto, os mortos permanecem como se se agarrassem a cada uma das expressões que as crianças fazem ao nascer.
Q. raramente escreve sobre a vida; talvez porque ela seja apenas o reflexo desse outro abismo fundamental.
A propósito disto, Q., que acordou muito, muito cedo, recorda a crónica que Pedro Mexia escreve hoje no DN. Mexia começa por sustentar que «a criação é gémea da infelicidade» para chegar ao que verdadeiramente interessa: Requiem, de Jorge Gomes Miranda. E Mexia cita:

Cansados de gritos e de luz inclemente,
os olhos encontram repouso na contemplação
do vosso destino
esfumando-se ao fim da tarde,
ó nuvens, que me acompanhais no regresso
a uma casa moribunda.

Nos silenciosos acordes da vossa tenebrosa
espuma espelha-se este céu desalentado
e o nosso maternal rosto.

Pudesse o futuro encontrar nos vossos braços
repouso, não tardaria a noite,
amparo e vigília,
a purificar o corpo que sangra,
devolvendo à vida o que a vida
cobardemente nos vai retirando.

Q. ainda não leu o livro de Jorge Gomes Miranda, mas já decidiu que este fim de semana vai ser de aventura: depois de se encher de coragem e de se esvaziar de gente e de fantasmas, Q. enfiar-se-à numa das FNACs lisboetas e, nestes tempos natalícios, no meio das duas ou três pessoas e dos dois ou três fantasmas que se passeiam pela secção dos livros de poesia, encontrará Requiem. E seguirá, mais uma vez, para uma casa moribunda, esfumando-se ao fim da tarde sob este céu desalentado.

Quarta-feira, Dezembro 7

play

Se cá em casa alguém soubesse dar música a este blog, a banda sonora «monotemática» para estes tempos e para os vindouros seria DON´T LET ME BE MISUNDERSTOOD cantado por Nina Simone.

Baby do you understand me now
If sometimes you see that I'm mad
Doncha know that no one alive can always be an angel?
When everything goes wrong you see some bad

Well I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

Ya know sometimes baby I'm so carefree
with a joy that's hard to hide
Then sometimes again it seems that all I have is worry
And then you're bound to see my other side

But I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

If I seem edgy
I want you to know
I never meant to take it out on you
Life has its problems
and I get more than my share
but that's me one thing I never mean to do

Cause I love you
Oh baby
I'm just human
Don't you know I have faults like anyone?

Sometimes I find myself alone regretting
some little foolish thing
some simple thing that I've done

I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

I try so hard
So don't let me be misunderstood

Saturno devorando a un hijo, Goya

percebia alguma coisa de finanças e consta que tinha biblioteca

Era rico e tinha a maior biblioteca do país, mas não confiava o dinheiro a ninguém. Guardava-o no meio dos livros: uma nota por página. Na poesia escondia as notas de 5, nos ensaios as de 10; as de 20 mantinha-as nas revistas literárias de capa grossa e as de 50 nos romances contemporâneos. Entusiasmava-se particularmente com a acumulação de notas de 100 e de 500 nos clássicos da literatura universal. Até ao dia em que se apaixonou por uma rapariga que devorava livros.

Terça-feira, Dezembro 6

[AQUI NASCEU O RISO]

Aqui nasceu o riso. Aqui nasceu
a palavra da árvore. Aqui nasceu
o gesto do sílex. Aqui nasceu
a dúvida mineral, mais a mentira
que dorme no intestino da montanha.
Aqui nasceu o sonho do esqueleto,
depois o primeiro amor da aranha
para o céu viúvo. Aqui nasceu o esforço
das coisas em direcção à mulher e dos objectos
em direcção ao homem. Aqui morreu, de súbito compreendida
e já ultrapassada, a raça humana.



Alain Bousquet, Quel royaume oublié?, tradução de David Mourão-Ferreira
(Colóquio-Letras nº 165, p. 219)

solidariedade

Solidária com o meu clube, lesionei ontem o joelho e coxeio por esta Lisboa fora, tentando esquecer que amanhã é dia de enfrentar o Manchester United.

ao meio-dia

Ao meio-dia já tenho os dedos frios - não por descrer, mas por crer em demasia.

Segunda-feira, Dezembro 5

marcadores



Marco os livros com cartões antigos, que já não identificam ninguém.



espera

Ultimamente, Q. tem-se dissipado nas esperas. Ficou sem contornos, sem margens, sem princípio, meio e fim. Q. é uma letra, e não faz parte de nenhuma das palavras que tu aprendeste a dizer.

a culpa tem sido sempre do sistema das comunicações

Não tenho grande fé de encontrar-te
na vida eterna.
Era já problemático falar-te
na terrena.
A culpa é do sistema
das comunicações.
Descobrem-se muitas mas não aquela
que tornaria ridículas, e até inúteis,
as outras.



Eugenio Montale, Poesie disperse (1980), tradução de David Mourão-Ferreira
(Colóquio-Letras nº 165, p. 143)



Eu hoje não acordei





Quinta-feira, Dezembro 1

funcionamento sazonal

No dia em que combinaram o primeiro encontro, ela disse-lhe «estou um bocado em baixo, não me dou bem com o Inverno, funciono mal com este tempo». Ele respondeu «engraçado, eu funciono exactamente ao contrário, é o Verão que dá cabo de mim». Ela inventou uma desculpa mais triste do que o diálogo entre eles: «parece que vai chover, não trouxe guarda-chuva, o melhor é encontrarmo-nos noutro dia».
Nunca mais se voltaram a encontrar - nem na Primavera nem no Outono -, e nenhum deles chegou a ter a certeza de que a conversa fora mesmo sobre criatividade.

actualização de Pessoa pela pena de Q.

Agora que a obra caiu no domínio público.

Escrevo -
perturbo-me de ver o bico da minha pena.



Escrevo -
perturbo-me de ver as arestas do meu teclado.

post para o dia de hoje

Ontem, Q. deu de caras com a Ceifeira que lhe arrancou o espinho essencial de ser consciente.
Depois de uma noite feliz com a Ceifeira, Q. acordou e, no lugar que ela deixou vago, repousavam dois versos de Pessoa: Triste de quem é feliz/Vive porque a vida dura.

post para o dia de ontem

Mais do que uma multiplicidade de sombras, Pessoa é o poeta que melhor ilustra a seguinte frase de Eduardo Lourenço:

Os poetas aprendem nos poetas o segredo da transfiguração poética, a alquimia secreta da transmutação da palavra em ouro.

Em ambos os sentidos.

muitos patos e muitos pombos

Daqui de longe, da janela da miopia, pareceram-me muitos patos e muitos pombos. Ali ao fundo, muito ao longe, todos juntos entre as árvores do Jardim da Estrela.

Domingo, Novembro 27

outro sonho

Matisse, Le rêve

o sonho - deep blue

Sonho que mergulho o meu rosto no teu cabelo agora deep blue
mas acordo sobressaltado com o telemóvel a vibrar no bolso
atendo e ouço a voz aflita de uma mulher desconhecida
a dizer-me que «eles descobriram tudo tens que fugir»
«eles quem e descobriram o quê?» mas a voz desaparece
e depois estou numa casa vagamente familiar rodeado de pessoas
estranhas que se comportam como se eu não existisse
e uma diz-me «vá lavar as mãos vamos agora jantar»
e eu vou mas a casa de banho está repleta de pessoas nuas
uma elipse e estou de cócoras a aplanar um chão de terra escura
«quantos sonhos de cada vez pode uma pessoa sonhar?»
pergunto-te eu perdido na profundidade do teu cabelo agora
deep blue.


Carlos Alberto Machado, Talismã, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

domingo - cartas de amor em tempo de guerra

Minha querida
Depois de amanhã é outra vez domingo, sei lá se o passarei largado aí por esses morros. Perdi a noção do que seja um domingo.



Fernando Assis Pacheco, em carta enviada de N'[anbuan]gongo para a sua mulher
Rosarinho, no dia 21 de Junho de 1963; publicada no JL de 23 de Novembro de 2005

bons conselhos ou «a estratégia do silêncio»

Numa «crónica mítico-literária de registo muito simples, quase elementar» (mas também equívoco, diríamos nós cá em casa), publicada no Mil Folhas de ontem, João Barrento insiste num dos temas que dominam a sua obra ensaística, centrando-se nas «esfinges». Constatando que vivemos «numa sociedade e numa época em que se cultiva o ruído, a desconversa e a banalidade», sublinha que o silêncio é uma espécie de chave para o sucesso: «quem souber seguir a estratégia do silêncio, a via da opacidade sibilina, a pose do enigma esfingíco, vê abrirem-se-lhe as portas do sucesso». E, depois de uma série de exemplos capazes de demonstrar que «(...) esfinge é esfinge, não se explica, aceita-se. Ou então tenta-se passar-lhe a perna. Mas, como a História (melhor, o mito) mostra, isso nem sempre é fácil.», nota que «os tempos (...) se revelam [hoje] surpreendentemente propícios às esfinges, "livros de pedra" que se apresentam como detentores de saberes secretos e poderes salvadores que as inteligências comuns (...) não conseguem desmascarar.».
Ao que parece, a esfinge, depois de derrotada, não se suicidou - «voou para outras paragens»; e, ao que parece, esta crónica, apesar de ter começado pela Literatura, voou também ela para outras paragens. Mas não há motivos para nos preocuparmos, como adverte João Barrento na nota com que termina a sua crónica: «como se sabe, as esfinges são puro mito, palavra da imaginação e não da razão, muito menos da História.».

adolescência

Quinta-feira, Novembro 24

todos os nomes

Na minha sala de aula da primária, havia gente que se chamava Sadik, Yuri, Dimpale, Décio, Rekhá. Eram meus amigos e tinham nomes que davam para contar histórias. Hoje, os meus sobrinhos partilham os lápis de cera, os afias e as canetas com Franciscas, Zés Marias, Bernardos, Carlotas e Beneditas. E, muito de vez em quando, com uma Solange Marisa ou com uma Kátia, com K., Vanessa.

Domingo, Novembro 20

para ele compro bombons/ para ele compro bananas

bombons


bananas


o que me vale no fim do fim de semana

O QUE ME VALE


O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições



(Manuel António Pina, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde
, Lisboa, A regra do jogo, 1974, p. 44)

Sábado, Novembro 19

eu e mais 1677

Ride
You Are... Ride.

You are young at heart and full of energy. You are
talented but very modest. You are happy go
lucky and care free. You have learned to take
the good with the bad and you just accept life
for being what it is. People tend to be envious
of you, That's only because they don't
understand you and they just want some of what
you have. There's no task too hard for you and
you excel at pretty much everything you try to
do. You have a playful personallity and a
beautiful inner soul.


what Creation Records band are you? (complete with text and images)
brought to you by Quizilla

ROUBADO AOS QUASE FAMOSOS

Desde que me iniciei nas lides blogosféricas, e graças à quantidade de testes a que me sujeitei, o meu inner self deixou de ter segredos para mim.

sentido prioritário

Há muitos anos, escreveram no livrinho de autógrafos de Q. É preciso primeiro ser antes de ter. Desde então, Q. apercebeu-se de que todas as pessoas que têm muito e são pouco acham esta frase «interessante», «linda», «apropriada para citar em ocasiões sociais», «verdadeira», «real». Mas para Q., muito antes de a frase existir no seu livrinho de autógrafos, já o real era uma hipótese repugnante.

escrever


Picasso, Girl writing, 1934

dilemas modernistas em tempos pós-modernistas: ser solidário/ser solitário



Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.






(Clarice Lispector, A Hora da Estrela)

outono (3)

OUTONO

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa
segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma
árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala
pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as
folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.

Russel Edson (tradução de José Alberto Oliveira)

uma série de perguntas

Diz-me: o que preferes?


Nan Goldin, Simon and Jessica in bed, half-lit, Paris


Nan Goldin, Risé and Monty kissing, NYC


uma série de perguntas

Diz-me: o que preferes?

Nan Goldin*, Isabella as a ghost, St. Remy, France


Nan Goldin, Valerie, Axelle and Joanna at the Pulp, Paris






*Nan Goldin andava perdida nas minhas memórias. Obrigada, Afonso.

pequenas e justas avaliações

Raramente João Pedro George se engana...

Sexta-feira, Novembro 18

ou aqui


Sonia Delaunay, Simultaneous Dresses The Three Women

por exemplo aqui


Sonia Delaunay, Le Bal Bullier

only if they ask







Se perguntarem por mim estou perdida num quadro de
Sonia Delaunay








como o nosso destino não está nunca nas nossas mãos

Parece que, segundo as regras deste jogo, sou muito dotada para a escrita. No limite (16 +), mas muito dotada. Todavia, a maior novidade diz respeito ao género literário: «Intenso (D e E dominantes): O fundo e, quase sempre, mais profundo que a forma. Convencido e angustiado. Grandes ambições. De Camus a Marx; mas também: Barthes, Goethe, Zola, Soljenitsine.».
A questão, com que entretanto Q. me confrontou, prende-se agora com o sentido que faz comparar este resultado (Camus, Marx, Barthes...) com a minha lista dos cinco romances portugueses dos últimos trinta anos. Deixei escrito n'A natureza do mal:
Sem ordem nem desordem -
. «Para sempre», Vergílio Ferreira
. «Aparição», Vergílio Ferreira
. «Mau tempo no canal», Vitorino Nemésio
. (tendo em conta a data da primeira edição, e fugindo propositadamente aos espartilhos genológicos) «O Livro do desassossego», Bernardo Soares
. «Casas pardas», Maria Velho da Costa

Problema: faz sentido falar dos últimos 30 anos do século XX (para a minha lista fazer sentido...)
...ou dos últimos 50 anos do mesmo século...

Diz o Francisco José Viegas que estes (os dele, os meus, outros) «podem não ser os melhores romances; mas explicam-me os últimos trinta anos».

Seria boa ideia fazer a mesma lista para livros de poesia e ensaios.
Até porque nas estantes cá de casa (e inspirando-me numa das perguntas de sábado do questionário do Mil Folhas) há mais poesia e ensaio do que ficção.

Quinta-feira, Novembro 17

o não lugar









(última frase da crónica «Partir, ir para longe», assinada por Manuel António Pina no JN de hoje)

Quarta-feira, Novembro 16

conselho (2)

Sempre que a tua fotografia cai da estante, fico com a impressão de que gostaria[s] de algo de repente/Um modo aterrador/Uma luz/Digo: um modo de amor. São coisas que se sabem, e quem sabe é que/ É alto para dentro. Eu sou enorme: consigo sempre restituir a fotografia ao seu lugar, no topo da estante. E deixo-me estar passivamente com as mesmas impressões. E pronto, gosto muito./ Muito.


(excertos de um poema de Herberto Helder recuperado pela memória a propósito de nada)

alteridade

Na TV, Q. viu imagens de Corps Bride, o novo filme de Tim Burton. Uma personagem, com uma certa, literal e desconcertante calma de morte, perguntava:

O coração ainda se despedaça depois de parar de bater?


coincidências macabras

ecos da infância

Destroy everything you touch today/ Destroy me this way

Everything you touch you don't feel/ Do not know what you steal

Wants you out of the sun

Please destroy me this way

Anything that may delay you/ Might just save you

You only have to look behind you/ At who's underlined you

Destroy everything you touch today/ Please destroy me this way



(fragmentos de Destroy everything you touch, Ladytron)

Terça-feira, Novembro 15

catchword (2)



inenarrável







Segunda-feira, Novembro 14

pequeno spa terapêutico

Desde que revestiu a casa de banho com pastilhas de vidro, Q. curou-se das suas grandes obsessões, tendo passado a meditar de forma organizada sobre o mesmo exacto assunto.

Domingo, Novembro 13

diálogos de domingo

Mary - Facts. I got a million facts at my fingertips.
Isaac - They mean nothing cos nothing worth knowing is understood with the mind. Everything valuable enters through a different opening. If you'll forgive the disgusting imagery.

(do filme Manhattan, de Woody Allen)



Sábado, Novembro 12

conselho

Há coisas demasiado próximas de nós; tão próximas que temos que as afastar para continuarmos a sobreviver.

Quando o psiquiatra repetiu pela quinta vez esta frase a Q., Q. regressou a casa pelo mesmo caminho e pôs de parte todos os discos de Stina Nordenstam.


E agora passa-se tudo como na canção. Welcome to happiness/ No smoking allowed/ Here it's so easy to burn yourself/ And equally hard to survive.

pequena confissão de fim de semana

Pelo Natal, quero que me tragam cá para casa um David Fonseca que nos cante canções de amor.

(que nos cante sobretudo a versão da buckleyana Song to the siren, dos This Mortal Coil, repetindo várias vezes «Did I dream you dreamed about me?»)

Quinta-feira, Novembro 10

fill in the blanks

Q. passou os olhos pelas estantes e não se conseguiu lembrar de nenhum casal feliz da História da Literatura.

tese de trazer por casa

Entre outros propósitos (talvez) mais elevados, Pedro Mexia vai ao cinema para ver mulheres bonitas.
Perfeitamente legítimo: é difícil descobri-las no intenso tráfego, com toda a poluição no sangue. Sobretudo para quem não se contenta com relances e encontros fortuitos.

quem

Hoje Q. acordou no modo interrogativo.
Quem, se eu gritar, me ouvirá...
Quem, se eu gritar, me ouvirá...

Quarta-feira, Novembro 9

citações

Q. sempre ambicionou citar a letra de uma música numa discussão azeda. Desde que penetrou no tecido urbano, as oportunidades sucederam-se, e ontem, algures na noite de Lisboa, finalmente gritou a tempo: Here we are at the transmission party/ I love your friends/ They're all so arty. Sem ironias, sem entoações e sem melomanias.

Terça-feira, Novembro 8

as asas

Avô

Está nos seus amplos aposentos
abrindo a janela às borboletas
abrindo a porta da varanda
à luz posterior da minha época.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Malva 62, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005, p. 23)





Q. leu o poema e saiu de casa. Foi comprar asas de papel fino, como as dos anjos.
Quando o telefone tocou, Q. não tinha ainda chegado a casa. Ao que parece, asas dessas já não se encontram nas cidades.

presságio





Duane Michals, Grandpa goes to Heaven, 1989

metade disso

O meu avô acreditava em cinco coisas.
Eu só acredito em duas.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Malva 62, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005, p. 89)



Q. acredita em metade disso.

banda sonora

(...)
I don’t wanna wait in vain for your love;
I don’t wanna wait in vain for your love;
I don’t wanna wait in vain for your love,
’cause if summer is here,
I’m still waiting there;
Winter is here,
And I’m still waiting there.

Like I said:
It’s been three years since I’m knockin’ on your door,
And I still can knock some more:
Ooh girl, ooh girl, is it feasible?
I wanna know now, for I to knock some more.
Ya see, in life I know there’s lots of grief,
But your love is my relief:
Tears in my eyes burn - tears in my eyes burn
While I’m waiting - while I’m waiting for my turn,
See!

I don’t wanna wait in vain for your love;
I don’t wanna wait in vain for your love;
I don’t wanna wait in vain for your love;
I don’t wanna wait in vain for your love;
I don’t wanna wait in vain for your love, oh!
I don’t wanna - I don’t wanna - I don’t wanna - I don’t wanna -
I don’t wanna wait in vain.
(...)
bob marley

sorry there is no return to your call

Ter uma única pessoa na Segurança Social que nos pode resolver o nosso único problema com a Segurança Social é o mesmo que deixarmo-nos estar longa e dolorosamente apaixonados por alguém que não existe.

Segunda-feira, Novembro 7

não (10)

não a determinação da data, mas a localização do espaço

perder-se de vista (2)

Q. perdeu-se de vista neste sítio.



Domingo, Novembro 6

benfica

Será que só cá em casa o Mantorras é considerado o maior trapalhão da história do futebol? (mesmo considerando a velha história dos minutos finais dos jogos da época passada)

não (9)

não o retorno do mesmo, mas a repetição seleccionante

angústia da influência em segundo grau

Q. depressa percebeu que os seus artistas preferidos sofreram todos a influência de Nietzsche.

Sábado, Novembro 5

não novelas, mas dramas

Small pictures since the Renaissance are like novels; large pictures are like dramas in which one participates in a direct way.
Mark Rothko

não (8)

não novelas, mas dramas

the elimination of all obstacles

Mark Rothko, Untitled, 1969

um passeio

Q. acordou e pediu-lhe «um passeio».
Q. permanece agora no sofá. Versos de Torga escorrem-lhe dos olhos para a boca. Desgraçadamente só morre quem se afoga no mar da própria condição.
Q. olha para o lado e, na outra almofada do sofá, a solidão aproxima-se do seu lugar, alastrando como uma nódoa no tecido.

Sexta-feira, Novembro 4

ele aceitou

Cesariny foi distinguido com o Prémio Vida Literária, da APE. Aceitou-o - em nome das infracções.
E fez muito bem, apesar de os prémios nada acrescentarem à obra. Não é certamente este o sentido oculto da história; não é certamente este o momento em que as paisagens foram escrupulosamente electrocutadas.

(...)
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma só história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semimortas à linha
(...)

(excerto do poema «Autografia»)

Quinta-feira, Novembro 3

the lake

To haunt of the wide earth a spot


My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake


Yet that terror was not fright
But a tremulous delight
And a feeling undefined

Poe na voz de Antony

chuva

Q. vivia nos subúrbios e, sempre que os campos se enchiam de água e no céu as nuvens tapavam o topo dos edifícios, imaginava um lago.

não (7) - the M words

não

mas

catchword



guarda-chuva



Quarta-feira, Novembro 2

a propósito

Por muito futebol que já tivesse visto em tão tenra e desmaliciosa idade, o craque não fora nunca presenciar, gozar, inebriar-se com o petisco dos deuses na terceira cidade do país: um Académica-Benfica ou, em gíria de sábado, um «Benfiqueinha». Naquele tempo, caídos quilos de poeira sobre a ENORME FAÇANHA da final da Taça de 39, o Benfica chegava a Coimbra e normalmente afinfava alguns secos (posso estar a exagerar, mas nesse caso é culpa da memória) ao «onze» da casa. Mas nem por isso, ou talvez mesmo por isso, à espera da revanche, o campo de Santa Cruz deixava de encher até ao pescoço. Um «Benfiqueinha» era coisa para a gente ir cedo e levar farnel.

Fernando Assis Pacheco, Memórias de um craque, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 27.


não (6)

não a infância, mas a sua matéria metafórica

desvios metafóricos

ela

ele

o filho

da série «looks good looks better» (5)

LOOKS GOOD

LOOKS BETTER

Terça-feira, Novembro 1

e também lhe disse

A snowflake settled on my hand and said, as if in fear,
"I must be on my way before i turn into a tear."

(mais sobre Moondog aqui)

Moondog

Antony falou a Q. de Moondog. Q. procurou e encontrou Moondog. Entre muitas outras coisas, Moondog disse-lhe:

She bought a cover to cover the seat; but the cover was so nice,
she bought a cover to cover the cover; and now it's covered twice.

antevisão


Sam Brown

depois dos sinos


Q. acordou com o som dos sinos da Basílica, e deixou-se estar todo o dia a matutar em silêncio na sua fragilidade de cabeça. Agora que é de noite uma hora mais cedo.

poema para ler num dia feriado

Quais as pessoas que existem, aquelas que ficaram,
portanto, com quem falar da vida?

Existe a amizade com os antigos
existe a contemporaneidade com os de agora
existe sobretudo a minha firmeza
a minha fragilidade de cabeça.


(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Malva 62, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005, p. 92)

não (5)

não a nostalgia da juventude, mas a nostalgia das expressões da juventude

(Bachelard)

Segunda-feira, Outubro 31

pausa para reflexão

L'artiste tragique n'est pas un pessimiste; il dit oui à tout ce qui est problématique et terrible.

(Pierre Brunel)

Domingo, Outubro 30

fim de semana


Passei o fim de semana fora de mim.


Cindy Sherman, Untitled Film Still #48, 1979.
Collection The Museum of Modern Art, New York.


Sexta-feira, Outubro 28

«deste mês abrupto»

É tão difícil escrever um poema
que não fale da morte.


(dois últimos versos do poema «September Song», de Manuel de Freitas; primeiro poema de Qui passe, for my ladye, edição do autor, Lisboa, 2005)

não (4)

não o exercício físico, mas o exercício mortal

letras maiúsculas

Para combater a PAS (cf. Visão, 27 de Outubro de 2005, pp. 114-115), Q. foi a duas aulas de RPM e teve um AVC.

Quinta-feira, Outubro 27

recomenda-se


who did this?

Sam Brown é maravilhoso.

colour me


Colour me
Cover me in the colour that reminds you
Solemnly.

pós-promoção (nenhum sítio)

Depois de uma noite mal dormida, K. acordou feliz como Q.. Sonhou que era Quelone e acordou feliz. Sonhou com a paixão secreta de Quelone por Zeus e acordou feliz. Sonhou com a ausência de Quelone no casamento de Zeus com Hera e acordou feliz. Sonhou com o momento em que Hermes desceu à terra para castigar Quelone e acordou feliz. Sonhou com o instante em que Quelone se sentiu afundar no rio com o peso da casa agarrado ao corpo e acordou feliz. Sonhou com a transformação de Quelone numa lenta e pesada tartaruga e acordou feliz. Sonhou que talvez agora fosse apenas o sonho/ de um deus não mais desperto do que Quelone./ Ouviu-o dentro dele, ao deus, a Quelone, e à felicidade com que acordou,/ cantando luminosamente à sua volta.
(pseudo-citação do poema «[Canção]», de Manuel António Pina)

alpha

Nestes dias, sofro por não poder apenas ficar por aqui a ouvir Alpha. Sobretudo «Sometime later» e «Somewhere not here». Sobretudo a voz de Martin Barnard e a de Wendy Stubbs.
Sobretudo os diálogos suspensos no tempo e no espaço.
Hold the sun down
Hold the sun down
Hold the moon down
Leave me to rest
Want the world man
Too the words out
Only relief is
To slip through the nets
Hold a minute
And stop a minute
And go, oh oh
Hold a minute
You said to me
Said to me and
Breath, breath, breath, breath, breath ...
You said it to me
Sometime later.

Quarta-feira, Outubro 26

Yakari

Au pays des Elans
Des bisons, des mustangs
Nombreux sont tes amis
Comme les brins d'herbe Yakari

Mille-Gueules et Double Dent
Tilleul et Bison Blanc
Nombreux sont tes amis
Comme les brins d'herbe Yakari

Avec Petit Tonnerre
Tu files comme l'éclair
A travers la prairie
Où le vent souffle Yakari

Sur la piste du vent

Seul, tout seul dans le désert
Tu ne crains pas les pièges
Grand Aigle te protège


Les bruits de la forêt
Te disent les secrets
Des animaux blottis
Dans leurs tanières Yakari


Tu sais où sont cachés
Les sources des rochers
Tu sais où sont tapis
Les daims, les biches Yakari

(...)
Salut Yakari



a propósito

Antes de se desp(ed)ir da sua identidade, K. quis ainda sublinhar, em tom de homenagem, que o nome Karyaka sempre lhe fez lembrar

pré-promoção

Antes de aceitar a promoção, K. lamentou apenas o facto de não poder voltar a ser confundido nem com Karyaka, nem com Karagounis.

(se bem que, neste momento, K., conforme comentou para o lado, preferia responder por S., de Simão)

promoção

K. foi promovido a Q., q de quá quá.

so real

your simple city dress

BED TIME STORY - da série «looks good looks better»(4)

LOOKS GOOD

LOOKS BETTER

LOVE, LET ME SLEEP TONIGHT ON YOUR COUCH

não (3)

não cansaço, mas sono

outono (2)

o que há em mim é sobretudo sono

Terça-feira, Outubro 25

retrato (im)provável

David Hockney, Beverly Hills Housewife, 1966

não (2)

não as palavras, mas os resíduos delas

não (1)

não a repetição, mas a experiência reiterada

in cosmic reflection

THE GOLDEN PATH
the chemical brothers feat. the flaming lips




Please forgive me
I never meant to hurt you

Segunda-feira, Outubro 24

o lugar e a fórmula

Enquanto lia (como em todos os outros dias) a 'coluna' «hoje fazem anos» do Público, K. lembrou-se de versos de Rimbaud e sentiu-se subitamente com pressa de achar o lugar e a fórmula.

Sábado, Outubro 22

a cama

Van Gogh, Van Gogh's bedroom at Arles

a casa

Van Gogh, The white house at night

como se

Os lugares são

a geografia da solidão.

São lugares comuns a casa a cama.


É como se estes versos me pertencessem.
A memória ( como uma criança à escuta) apossou-se deles.

Sexta-feira, Outubro 21

passeio alegre

Durante o cavaquismo, K. não tinha ainda fundamentos para as suas opiniões; tinha uma espécie de vago pressentimento. Hoje, num almoço de família e amigos, K. comunicou que odeia Cavaco, detesta Soares e vai votar Manuel Alegre. Depois de verbalmente espancado pela avó materna, K. desceu todas as ruas de Lisboa amparado pela única amiga que, tal como ele, sabe que «há guerras que não acabam nunca, elas são a vida, elas são a escrita, afastai de vós o cepticismo e os micróbios, a página está em branco e o nosso destino é cavalgar, cavalgar, cavalgar.».

Quinta-feira, Outubro 20

elogio

The little prince quiz


Encontrado, com resultados diferentes, aqui e aqui.

fora de casa

Cá em casa gostamos de algumas coisas que se passam lá fora. Como as dezenas de posts que de tempos a tempos preenchem os dias em branco do blog letra minúscula.

souvenir


Tenho demasiados cabelos ao vento.

un souvenir n’apparaît que dans le contexte d’un moment présent
(sustentou Freud)

hélas

La chair est triste, hélas! et j'ai lu tous les livres.

Mallarmé


a biblioteca cá de casa


Vieira da Silva, Bibliothéque en Feu
, 1974, óleo sobre tela

envelhecimento precoce

K. ligou cá para casa hoje, às cinco da manhã. Estava com insónias e lia Toda a Mafalda. Confessou-me as suas afinidades umbilicais com Miguelito. E desligou sem me dar tempo para comentar a sua tirada final: «Eu até consegui aprender a conviver com o momento em que me tornei uma pessoa adulta, mas tenho sérias dificuldades em enfrentar o instante em que filosoficamente me transformei numa cínica criatura».

Não voltei a pregar olho.

Quarta-feira, Outubro 19

repeat

Hoje ambiciono não pensar em nada. Mas há sempre gente lá fora, gente com pressa, com vento e com chuva. Gente com demasiados pensamentos que contaminam. Hoje ambiciono ouvir até à exaustão I disappear, dos The Faint.

E agora tenho que ir que estão a bater à porta.

Terça-feira, Outubro 18

outono

O tempo frio instalou-se em mim como uma nódoa negra.

Francesca Woodman, House #3, Providence, Rhode Island, 1975-1976.

Segunda-feira, Outubro 17

uma recordação à solta

StarDustMemories

Há um homem à porta do prédio de K. que recita versos de um poeta desconhecido. Repete-os todos os dias, à mesma hora, no mesmo sítio. K. acha-os medíocres, mas sabe-os de cor. Declama-os muito baixinho, acompanhando o homem: «A morte contempla-te/ e entre ti e ela há apenas/ a límpida película em que te dissolves/ quando já nada importa.// Resolves então caminhar. Caminhas/ até imaculadamente submergires/ em algo parecido com isto, da mesma substância,/ qualquer coisa que te parece pó,/ como a residual ilusão de que ainda existes.». Aliás, K. receia que um dia, quando lhe perguntarem num inquérito de rua se lê poesia e depois de responder afirmativamente, estes versos lhe escapem como uma recordação à solta.

Domingo, Outubro 16

I was twelve

Sábado, Outubro 15

da série «looks good looks better» (3)

LOOKS GOOD
LOOKS BETTER

fuso horário

K. insiste em questionar-me: «A hora exacta de um post é a do minuto em que se começa a escrevê-lo ou a do momento de cessação da escrita?»

Sexta-feira, Outubro 14

culpa de trazer por casa


Já me berraram: «Cá em casa não se vê nem mais um episódio d'O sexo e a cidade. Como se uma mulher precisasse da imagem de Carrie com os seus «Manolos» para sentir o apelo de um bom par de sapatos. Estes são uns «Irregular Choice» e há mais aqui.

Quinta-feira, Outubro 13

a propósito

K. questionou-me: «Por que razão ninguém enviou respostas a isto cá para casa?». Tive que o esclarecer: «K., tu não vives cá em casa.».

he will always have Serralves


«O medo é sempre o reflexo do nosso fantasma quando cá estamos neste mundo.»

(João Penalva, Kitsune, o espírito da raposa, 2001)



Há uns meses, K. regressou a Serralves.
Conheceu parte da obra de João Penalva.
Reteve obsessivamente uma frase do artista.
Lançou-se na demanda do seu fantasma de modo a conhecer o medo capaz de o reflectir.
Nunca mais teve tempo para ir a exposições.

da série «looks good looks better»

LOOKS GOOD

LOOKS BETTER

Harold Pinter

The ligths glow./ What will happen next?

Quarta-feira, Outubro 12

sintomatologia

K. acordou com versos de O'Neill na cabeça, no tronco e nos membros: «Vamos ferver o osso da pobreza,/ que é, desta vez, alegremente nossa?// É que a mesa corrida já está posta.».

Terça-feira, Outubro 11

LOOKS GOOD
LOOKS BETTER

inquérito de trazer por casa

«Para onde deve o homem dirigir o seu pensamento para não ser considerado louco? (...)
Um homem moral em que assuntos deve pensar?
E em que assuntos não deve pensar? (...)
Que actos devo fazer? (...)
Que pensamentos devo ter?»

«Eis o problema colocado pelo doutor Gomperz e sobre o qual agora Theodor Busbeck tenta reflectir.».

Mesmo que não subscreva a teoria do doutor Gomperz, de acordo com a qual «a loucura (...) [é] uma pura falta de ética», formule a sua hipótese e envie-a cá para casa.

(citações de TAVARES, Gonçalo M.. Jerusalém, Lisboa, Círculo de Leitores, 2004, pp.104-105.)

a couch in new york (versão de trazer por casa) - parte II


- Senhor Doutor, eu odeio intervalos. Intervalos no cinema, interlúdios nos concertos, pausas para café, lugares desocupados, separações, distâncias e intermitências, o silêncio entre duas notas tocadas ou entre dois toques de telefone, o espacejamento das palavras, hiatos e remissões, jogos para preencher espaços em branco, interstícios, fendas e buracos. E o esquecimento, o esquecimento também, Senhor Doutor, a distância entre o que nos acontece e o momento em que nos voltamos a lembrar de nós. É como viver a ilusão de que podemos suspender o tempo.

ouvido atrás da porta

- Eu não tenho grandes ódios. Muito sinceramente, acho que não odeio ninguém.
- Dizes isso porque nunca tiveste uma madrasta. Certo?
- Pois... Parece que tudo se explica na infância.

ecologia figurativa

Ontem, à revelia de pais, avós e restantes autoridades familiares, ofereci um Kinder Happy Hippo à minha sobrinha. Lançou-se num pranto indignado ao perceber que a sua árdua missão passava por comer o nariz ao hipopótamo.

o livro em branco (versão de trazer por casa)

Quando lia, lia nas entrelinhas. No fim da vida, concluiu que o único livro que verdadeiramente lera fora aquele que nunca escrevera.

Segunda-feira, Outubro 10

delicodoce

Os meus sobrinhos dizem mais do que três vezes por dia que eu sou a paixão da vida deles. Hoje foram proibidos de andar de carro com a «paixão». Um porque foi apanhado a reclamar de carrinho na mão: «Que méda, esse gajo não anda nem sai da frente!»; o outro porque incentiva todo e qualquer condutor do seu próprio carrinho de bebé a violar o Código da Estrada: «Acelela! Acelela!».

Domingo, Outubro 9

pequeninas coisas que salvam os primeiros domingos de chuva

1. Vestígios de crianças nas janelas cá de casa (Olha os pavões... e as pombinhas, de Francisco Maria, manteiga sobre vidro, Outubro de 2005);
2. A personagem Mylia, criada por Gonçalo M. Tavares, em Jerusalém: «Mylia está agora nas traseiras da igreja, põe a mão no bolso e tira de lá o pequeno objecto que deixa escapar pó. Um giz branco. Giz para escrever na ardósia. Esquecera-se dele no bolso. De manhã desenhara uma casa na ardósia que guardava na sala. Desenhara a casa onde iria morar se entretanto não morresse. Não morrer nos próximos meses seria para Mylia o mesmo que entrar na sua imortalidade. Se não morrer, dizia, transformo-me num ser imortal.»;
3. Revisão dos motivos para regressar ao Porto: cama e roupa lavada a preços interessantes;
4. A primeira parte da crónica de Joaquim Manuel Magalhães (Actual, Expresso, pp. 60-61), cuja leitura permite (sem querer?) compreender alguns dos temas e motivos da sua poesia: «(...) Suponho que munca mais (...) me lembrei do céu. Sempre preferia faróis dos carros, varandas em ruas iluminadas ou o transportador fechamento dos bares.»;
5. A colecção de momentos de António Lobo Antunes, publicada na p. 15 da Visão de quinta-feira, 6 de Outubro: «Deviam poder guardar-se estes momentos no banco, a render juros. E receber o extracto ao fim do mês: em lugar do dinheiro, um clarinete à chuva, uma onda, a boina de Alfonsinha Storni e o cheiro da erva molhada, o pobre Caruso a tentar soltar-se do disco. Se o gestor da conta fosse esperto informava-me «este mês tem mais uma onda», «até ao fim do ano espero conseguir-lhe dois clarinetes» (...).»;
6. A crónica «E exterminá-lo?», de Manuel António Pina, no mesmo número da Visão (p. 96), comentando episódios daquilo a que o autor chama uma «versão tosca, em jardinês, do L'État c'est moi» (pode encontrar-se o «alvo», na sua melhor forma, aqui).
7. A voz de Feist na música «Why don't we disappear», acompanhada por alguns dos sons violoncelantes do álbum Z, assinado por Gonzales.
8. A tua voz quando me queixo de estar enjoada por ter insistido na outra metade de um Häagen-Dazs: «Agora já não há mais...».

o tigre que se traz cá por casa (com ou sem sol)

domingo, sunday, dimanche, sonntag, domenica

Valerá a pena sair de casa num dia assim?

Domingo ainda agora começou. Mas já me deparei com isto, e isto constitui uma evidência tão dolorosa quanto a única adenda hodiernamente possível para o envelhecido «tudo vale a pena se a alma não é pequena». É que ela, a alma, mirrou há muito.

pô!








A gente sentiu sua falta, pô!

Sábado, Outubro 8

misplaced

Mudar de casa é sujeitar a memória a pequenos choques epiléptico-sentimentais. Recuperamos o que nunca foi o nosso ponto de vista. Pelo menos, eu nunca tinha olhado para a colecção de fósforos da minha irmã mais velha como uma espécie de campanha publicitária subliminar. Target: as «mulherzinhas».

Sexta-feira, Outubro 7

I power blogger

Depois de alguns meses a navegar pela internet, apercebeu-se de que nada há de mais manipulável do que a cronologia de um blog. Chegou mesmo a usar metaforicamente a evidência para falar do marido às amigas e ao psiquiatra.



Quinta-feira, Outubro 6

a couch in new york (versão de trazer por casa)

- Senhor Doutor, gosto de andar de metro pela percepção da pressa das pessoas feias. Gosto de passar uma semana num quarto de hotel piroso pelo instante em que regresso a casa. Gosto de ler um ou dois maus poemas por dia e cerca de três romances falhados por mês pelo exercício das minhas capacidades críticas. Gosto de assistir às desgraças das pessoas felizes pelo bom nome do conceito «lição de vida». Não gosto de sítios bonitos cheios de pessoas bonitas pela sensação de ser apenas mais um no meio da multidão. Sabe, Senhor Doutor, eu nunca recuperei da minha passagem por Nova Iorque.

Quarta-feira, Outubro 5

perder-se de vista

Durante um mês e meio não teve espelhos em casa.
Comprou dois e pendurou-os em lugares estratégicos.
Quando se voltou a lembrar de si, nada do que lhe acontecera naquele mês e meio lhe dizia respeito.


Mário Botas, Sem título, 1983

33 1/3

a varanda cá de casa

Ontem à noite não havia pessoas em Lisboa. Havia o barulho dos grilos e uma quantidade enorme de estrelas. Juntos contornavam um minúsculo ponto de interrogação.

No gramofone, PolyStar - O som do êxito, com «More than this», dos Roxy Music:

«I could feel at the time
There was no way of knowing
Fallen leaves in the night
Who can say where they´re blowing
As free as the wind
And hopefully learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this - there is nothing
More than this - tell me one thing
More than this - there is nothing
It was fun for a while
There was no way of knowing
Like dream in the night
Who can say where we´re going
No care in the world
Maybe i´m learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning
More than this - there is nothing
More than this - tell me one thing
More than this - there is nothing».

Terça-feira, Outubro 4

to be lacking in

Ficar sem gasolina a subir a Infante Santo. Certeiramente, os Belle and Sebastian na rádio: «if you´re feeling sinister». I was. Até porque, depois de mais uma vitória sofrida do Benfica (em que Nuno Gomes usou como nunca a cabeça), ontem adormeceu-se cá por casa a meio de Duras verdades, de David Lodge (tradução de Rita Pires e Ana Maria Chaves, Lisboa, Asa, 2000, pp. 59-60):
«(...)
- Será que podíamos voltar a falar de si? Por que deixou de escrever ficção?
- Decidi que a minha obra estava completa. Que já não tinha mais nada para dizer.
- Assim, de um momento para o outro?
- Assim, de um momento para o outro.
- E isso não o perturbou?
- Por uns tempos. Mas depois até comecei a gostar.
- Como assim?
- É como quando se fica sem gasolina e o carro pára - explicou Adrian. - A princípio é aborrecido, mas pouco depois começamos a apreciar o silêncio e a tranquilidade. Ouvem-se coisas que nunca se ouviam antes, porque estavam abafadas pelo ruído do motor. Vêem-se coisas que antes passavam de relance, indistintas.
- Alguma vez ficou sem gasolina? - perguntou Fanny.
- Já que pergunta, não.»

Segunda-feira, Outubro 3

Eclipse

Hoje saí bem cedo para levar o blog à rua. Conheceu os cães da vizinhança, e juntos uivaram ao eclipse. Felizmente tinha levado os óculos que a Visão oferecera na quinta-feira passada. Quando regressámos a casa, expliquei-lhe que «eclipse solar é o obscurecimento de parte da visibilidade ou da luminosidade do Sol pela sombra da Lua projectada na Terra». Perplexo, perguntou-me: «Para quando o mesmo cá por casa?». «Lua nenhuma seria capaz de ocultar tanta melancolia» foi a resposta.


Domingo, Outubro 2

had a nice weekend

E agora, José?
Agora «a noite esfriou», e eu posso dormir (mais) descansada.

have a nice weekend (2)

Um bom fim de semana no conforto do lar termina com notícias destas.

Bed time story - um post não confessional


Cindy Sherman, Untitled Film Still #3. 1977
Collection The Museum of Modern Art, NY

A propósito de confessionalismos e posts intimistas (e passando por cima da cada vez mais profícua discussão teórica que se tem desenvolvido em torno do tema), confesso a Deus Todo-Poderoso e a vós, irmãos:

I wanna
I wanna
I wanna be adored

wanna
I wanna
I wanna be adored

I wanna
I wanna
I wanna be adored

I wanna
I wanna
I gotta be adored

I wanna be adored


(Stone Roses)

...Por minha culpa, minha tão grande culpa.

Alternative take - lunch time


«So far away
Come on I'll take you far away
Let's get away
Come on let's make a get away

Once you have loved someone this much
you doubt it could fade
despite how much you'd like it to
God how you'd like it to fade

Let's fade together

If we get away
You know we might just stay away
So stay awake
Why the hell should I stay awake?
When you're far away
Oh god you are so far away

I looked your wall
Saw that old passport photograph
I look like I've just jumped the Berlin Wall
Berlin I love you
I'm starting to fade

Let's fade together»

play

Bem sei que hoje é dia de Franz Ferdinand, mas depois de um fim de semana solitário de insónias (barulhos indecifráveis no telhado atormentaram o meu sono de beleza), o domingo começou com Maxwell:
«Gonna take you in the room suga'
lock you up and love you for days
We gonna be rockin' baby til the cops come knockin'
Pappa gonna have to leave a message on the
telephone baby
There won't be no stoppin' til the cops come knockin'»

E depois?


Excerto de um diário encontrado nas ruínas da casa (antes de ser nova):

«Regresso ao diário. Devia escrever as palavras que aprendes a dizer em cada dia; mas fico sempre impressionada de mais ou de menos com outras coisas nada interessantes – hoje, por exemplo, soube que alguém perdeu um irmão com vinte anos, o que é o mesmo que perder um avô com setenta aos onze anos. Quando nasceste cheguei a pensar no seu regresso; aprendo sempre a viver a morte devagar – todos os dias; mas tu nasceste, já dizes o meu nome – hoje, por exemplo, olhaste para mim, para o que de mim estava mais ao teu alcance, disseste «pato».
Do meu sapato nunca nada se tinha dito no mundo.
(...)
Devia comprar um caderninho, coisa pequena, com um lápis acopulado. Nele devia, queria... escreveria todas as palavras novas que me dizes. As palavras novas têm um sabor diferente e quando as dizes podem ser o que foram há muitos muitos anos quando eu era uma outra (ou, porque assim deve soar-te melhor, quando eu é uma outra).
E depois há a maneira como dizes as palavras, como as sopras, como as destróis. Nada é mais criador do que tu – momento único da infância mais perfeita, mais...

(Dás-me beijos em troca de desenhos e és demasiado perfeito para entenderes qualquer coisa sobre isto ou sobre nós ou ainda sobre a desnecessidade das nossas trocas.Duvido que alguma vez na vida e na morte volte a acontecer alguém como tu.)

Dizem-me que é escusado escrever sobre o que me revelas todas as horas. Dizem-me eles, os sábios, os teóricos, de certa ou de outra ou da mesma maneira, os poetas. É impossível recuperar por excesso ou por defeito, e tu és tão pequeno, tens já tantos espectros.
Sempre me chamaste pelo meu nome, refutando imoral e puramente as mais doutas teorias da aprendizagem da fala; afastas-me, negas a fotografia, como se já soubesses que é o rosto o que verdadeiramente importa. A palavra José nunca será a tua existência enquanto a palavra sangue não sangrar. Ainda assim quero que aprendas o teu nome, precisas de uma identidade ou de qualquer coisa que se assemelhe a isso. Neste momento, és «zé».

Raspo a unha da melancolia no bico do lápis – culpo-me por me esquecer de mais: como restituir-te à tua unidade, como devolver-te um único rosto se um dia olharás para isto e não és tu aquele que verás. Ainda assim prometo-te a minha persistência, a minha existência – hoje, este dia mudado mais para a frente, como uma espécie extinta, um endereço permanente.»

Sem assinatura, sem data, sem lugar

Se bem que...


...there's hope...

Around the clock?

Nunca me dediquei por mais de cinco segundos a pensar naquilo a que comummente se chama «relógio biológico». À falta de manuais versados no assunto nas estantes cá de casa, procurei respostas na internet. E encontrei boas e inquietantes notícias aqui, dicas e sugestões aqui, poemas desconcertantes aqui, aplicações do conceito a outras temáticas aqui e o tão esperado alerta aqui. Ao que parece o referido mecanismo de medição do tempo dá horas nas mulheres. Insisto em atrasar o meu, descobrindo cada vez mais motivos para adiar a procriação (a escolha é, literalmente, múltipla):

a) repetir, como se fosse a tabuada, o quadro político, económico e social traçado por Joaquim Aguiar no «Expresso da meia-noite» (SIC Notícias) de ontem;

b) dispôr livremente das vinte e quatro horas de um domingo para:
1. acabar de ler o «Expresso», o «Público» e o «DN» do sábado anterior num sofá com vista sobre Lisboa e o Tejo, esse irresistível lugar comum;
2. continuar a ler os vários livros que se acumulam nos recantos do lar (poesia no sofá, ensaio na secretária, ficção na mesa de cabeceira, «The New Yorker» na mesa do pequeno almoço);
3. ver pela enésima vez e de seguida todas as séries de «Seinfeld», interrompidas apenas durante entre as 17h e as 18h para assistir a «Desperate housewives»;
4. ir «para as hortas na pessoa dos outros/ Contente da minha anonimidade» (Álvaro de Campos);

c) repetir para mim mesma que as crianças de hoje obrigam as mães a assistirem a:
1. concertos dos D'ZRT;
2. «Morangos com açucar»;
3. desenhos animados para os quais os ouvidos não estão «decibelmente» preparados (o que é feito da voz do avô de Heidi? ou do som melodiosamente atonal da vaca da Rua Sésamo quando cantava «eu tenho orgulho, orgulho em ser uma vaca, vaca, vaca/ eu tenho orgulho, orgulho em dizer mu e não miau...»);

d) construir despreocupada e assiduamente um «labirinto/ no labor íntimo» e descobrir «quem foi que à tua pele conferiu esse papel/ de mais que tua pele ser pele da minha pele» (David Mourão-Ferreira).


Sábado, Outubro 1

have a nice weekend

Um bom fim de semana no conforto do lar começa com notícias destas.

Sexta-feira, Setembro 30

a ponto de eu nesse instante explodir em:


«Vara de arames - Ao desfazer a farinha com a água, mexa vigorosamente com uma vara de arames.»

A frustração doméstica reside algures entre a importância da vara de arames na confecção de um bolo de ananás e a interpretação do advérbio «vigorosamente». O que é o mesmo que dizer: entre os objectos desprezados na lista de casamento e a aptidão físico-exegética do aspirante a cozinheiro.

Exclua os ingredientes de origem animal

«Normalmente sinto um prazer enorme em perseguir os ditongos das palavras e assistir ao movimento dos parágrafos quando adquirem essa dimensão inaudível do som. Repetições, acrescentamentos, e o significado primeiro das palavras torna-se algo parecido com isto, da mesma substância. Faço-o com prazer acrescido se a música soar com força, agressiva, e a televisão passar imagens de felinos a perseguirem presas. Não sou escritor. Gosto é de bichos que, tal como as palavras e como a criança da minha mulher, ocupam um lugar indizível ao qual nunca chegarei.»


(De um papel encontrado na caixa do correio da casa nova, a do chuveiro que infalivelmente não pára de pingar; a caixa do correio, apesar de velha, suja e empoeirada, funciona.)

Entre o «jantar na mesa» e a «novela da noite»

Se esta história não existe, vai passar a existir.

Fica sempre uma franja de vida (Drummond de Andrade)

O chuveiro (ainda) está a pingar. O canalizador (ainda) está de férias. O marido (ainda) está a trabalhar. Eu (ainda) penso se não devia cortar a franja para alojar os nervos.

Franja




Franja




Nota sobre o post anterior

Post que poderia explicar a razão pela qual os advérbios de modo são mais fundamentais do que os adjectivos nas lides domésticas.

Em estado pouco líquido

Um chuveiro imaculado pinga aleatória, esporádica e meticulosamente sem ninguém rodar a torneira. Pergunto-me: «Será a baratinha orfã a subir pelos canos em busca da mamã que foi para o céu coberta de mata-moscas?» Note-se que o dito chuveiro responde pela marca e pelo modelo TRES DUCHA BIMAX THERMOSTATIC, e fica sempre bem numa zona de duche revestida com pastilhas de vidro Bizassa.